Segue um trecho de um diálogo entre um garoto e um extra-terrestre, rescém-chegado ao Planeta Terra, retirado do livro "Ei! Tem alguém aí?", de Jostein Gaarder. "Assim que Mika acabou de testar a gravidade, ficou de quatro no chão e examinou a grama. Primeiro cheirou, depois arrancou uns tufos verdes e pôs na boca. Sem dúvida o gosto não lhe agradou, pois logo cuspiu a grama fora.
“Isso não serve para comer”, falei.
Ele cuspiu de novo, várias vezes. Fiquei com um pouco de pena. Se ele estava viajando fazia meses e meses, vindo lá de outro planeta, devia estar com muita fome! Pensando nisso, corri até a árvore e apanhei uma bela maçã do chão. Achei melhor tentar recebê-lo bem, em nome do meu planeta.
“Pode comer uma maçã”, falei, oferecendo-lhe a fruta.
Foi como se ele estivesse vendo uma maçã pela primeira vez. Primeiro só cheirou, depois arriscou uma dentadinha. Daí exclamou: “Nham-nham!”, e deu uma grande mordida.
Perguntei: “Você gosta?”
Ele se inclinou bem para a frente, fazendo uma reverência. Eu queria saber que gosto tem a primeira maçã que alguém come na vida. Perguntei de novo:“Que gosto tem?” E ele fez outra reverência.
Então perguntei: “Por que você está se inclinando?”
Mika se inclinou mais uma vez. Fiquei tão perplexo que só consegui perguntar de novo:
“Mas por que você está se inclinando desse jeito?”
Agora foi a vez de Mika ficar confuso. Acho que ele não sabia se era melhor se inclinar mais uma vez, ou só responder.
“Lá de onde eu venho”, explicou ele, “nós sempre fazemos uma reverência quando alguém faz uma pergunta fascinante. E quanto mais profunda for a pergunta, mais profundamente a gente se inclina.”
“Nesse caso”, perguntei, “o que vocês fazem quando querem se cumprimentar?”
“Tentamos pensar numa pergunta inteligente.” disse ele.
“Por quê?” perguntei confuso.
Primeiro ele fez uma reverência rápida, já que eu tinha feito mais uma pergunta; daí falou: “Tentamos pensar numa pergunta inteligente, para fazer a outra pessoa se inclinar.”
Essa resposta me impressionou tanto que fiz uma profunda reverência, me inclinando ao máximo. Quando levantei os olhos, vi que ele estava chupando o dedo. Houve uma longa pausa até ele tirar o polegar da boca. “Por que você me fez uma reverência?”, perguntou ele num tom quase ofendido.
“Porque você deu uma resposta superinteligente para a minha pergunta”, respondi.
Daí, numa voz bem alta e clara, ele disse algo que eu haveria de lembrar para o resto da vida: “Uma resposta nunca merece uma reverência. Mesmo que for inteligente e correta, nem assim você deve se curvar para ela.”
Fiz que sim rapidamente. Mas me arrependi no mesmo momento, pois Mika poderia pensar que eu estava me inclinando para a resposta que ele acabava de dar.
“Quando você se inclina, você dá passagem”, continuou Mika. “E a gente nunca deve dar passagem para uma resposta.”
“Por que não?” perguntei.
“A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só a pergunta pode apontar o caminho para a frente.” Achei que havia tanta sabedoria nas suas palavras que precisei segurar bem firme meu queixo para não fazer outra reverência."
Esse sábio trecho ilustra o quanto nossa cultura valoriza um suposto saber fora de nós. O quanto valorizamos ter respostas que cumpram as expectativas que temos ou que confirmem os modelos mentais que queremos manter.
Faço a reflexão sobre o quanto estamos apegados as nossas certezas e a posição do que sabe, do inteligente, do estratégico, do bem-sucedido... e o quanto tudo isso nos torna mais frágeis e menos sábios.
Quando encontramos as respostas paramos de nos perguntar, e na maioria das vezes de refletir também. Quem responde, responde desde seus paradigmas, experiências e conhecimentos, que não necessariamente correspondem aos nossos, e muitas vezes nos impede de construir novos modelos.
Hoje não há mais espaço para os velhos paradigmas, precisamos rapidamente construir novas maneiras de nos organizar para que seja possível a vida no planeta. A pergunta e a reflexão nos levam a outro espaço, vão retirando os véus que encobrem nossa visão e nos possibilitam múltiplas maneiras de perceber e realizar.
Então ficam as reflexões: A que reverenciamos?
A que servem as respostas que buscamos?
Que perguntas ou reflexões são significativas para o viver que queremos viver?
Narjara Thamiz
1 comentários:
Hola Nar!
gracias a tu reflexion recordé que el caracter de la pregunta que hacemos determina la respuesta que aceptamos y que aceptamos una respuesta a partir de nuestros propios criterios de validez!
glc
Postar um comentário