terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma Cultura de Paz!

Um estudo realizado pelo etólogo Robert Sapolsky, em uma comunidade de babuínos Savana que acompanhava, na reserva masai Mara, Quênia, revelou que uma cultura de paz, é possível mesmo entre espécies violentas de Babuínos. A pergunta que fica é: Como podemos então construir uma cultura de paz entre humanos?

Em seu artigo “A Natural History of Peace” (uma história natural de paz), Sapolsky relata um episódio que aconteceu no início dos anos 80, em um grupo particularmente agressivo de babuínos, que já acompanhava por quase 30 anos - os ‘Forest Troop’.

Esse grupo, era vizinho de um outro grupo de babuínos que vivia próximo a um alojamento turístico com um lixo farto de restos alimentares.

Esse grupo, próximo ao alojamento, se organizou em torno do lixo e passou a se alimentar dele. Descobrindo isso, um grupo de machos-alpha dos ‘Forest Troop’, a metade dos machos desse grupo, particularmente agressivos e anti-sociais, passou a invadir o lixo toda manhã, lutando com os outros babuínos pela comida.

Até que um dia, a comida estava infectada por tuberculose e dizimou todos os babuínos que se alimentaram dessa. Comos os machos do ‘Forest Troop’ não compartilhavam a comida com o resto do grupo, não os contaminou, deixando o grupo sob o comando de machos menos dominantes e fêmeas, que passaram a ser o dobro do número de machos, dando características cultural e comportamental completamente diferentes para esse grupo.

Ainda existia hierarquia, porém a agressão era rara, houve um aumento significativo no comportamento afiliativo e as carícias entre babuínos, machos e fêmeas e até entre machos passaram a ser frequentes.

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir. Mesmo após a morte dos machos que sobreviveram à epidemia e a migração de machos de outros grupos, com padrões de alta agressividade e baixa afiliação, a cultura dos ‘Forest Troop’, de baixa agressividade e alta afiliação, se manteve e os novos integrantes se adaptaram a ela. Até hoje eles se mantém assim, mais de 20 anos depois.

A explicação do pesquisador é que a cultura não foi transmitida ativamente, ela naturalmente emergiu através das ações dos membros residentes. As fêmeas mais relaxadas e bem tratadas, são mais carinhosas e atenciosas, e os novos forasteiros, encontrando um novo universo, também ficam mais relaxados e incorporam-se a cultura, mais prazeirosa do que a que participavam antes.

Estudos mostram que algumas espécies de primatas tem suas vidas repletas de violência, já outras vivem comunitariamente em cooperação, e inclusive alguns padrões genéticos emergem dessas diferenças.

Por exemplo, em grupos como os gibbons ou marmosets, primatas que vivem em lugares onde o alimento é farto, pleno e a vida é ‘fácil’, os machos não possuem algumas características secundárias típicas dos machos de espécies mais violentas, como caninos afiados, tamanho maior que o das fêmeas, além da ajudarem substancialmente na criação dos filhos. Já em espécies mais violentas, como baboons e rhesus, o oposto acontece.

Após décadas de trabalho, concluiu-se que algumas espécies de primatas são violentas ou pacíficas, de acordo com sua estrutura social e com o cenário ecológico em que estão inseridos. E mais importante ainda, é que algumas espécies podem ser pacíficas apesar dos traços violentos que têm em sua natureza.

Do ponto de vista da biologia, alguns estudos mostram que a estrutura cerebral chamada amídalas cerebelosas, parte do sistema límbico, situada no pólo temporal do hemisfério cerebral de grande parte dos vertebrados, incluindo o homem, é um importante centro regulador do comportamento sexual, do medo e da agressividade. E experimentos mostram que ao apresentar rostos de pessoas de diferentes raças, mesmo que sublinarmente, essa região é ativada, ficando alerta e pronta para ação.
Porém, estudos mais recentes, mostram que pessoas que têm experiências com pessoas de outras raças, não apresentam essa reação. E ainda um estudo mais mais recente de Susan Fiske, mostrou que quando avisadas antecipadamente para pensar nas pessoas como indivíduos, ao invés de membros de grupos, ao fazer esse estudo, as amídalas cerebelosas também não são ativadas.

Fazendo uma reflexão mais profunda sobre a mudança cultural no grupo dos babuínos, podemos observar que quando o comportamento agressivo, que gerava violência e medo no grupo foi extinguido, com a morte súbita dos babuínos alpha mais agressivos, a comunidade ganhou uma característica muito mais amorosa e respeitosa entre os membros, que não mais precisavam se proteger. E assim emergiu naturalmente um grupo cooperativo e pacífico, que mesmo ao receber animais de outros grupos, com características agressivas, foi capaz de transformá-los dentro da sua cultura, a partir de suas atitudes como grupo.

O processo foi tão natural que parece que essa cultura estava lá todo o tempo sendo abafada pela violência e agressividade dos machos-alpha. Será mesmo a essência dos primatas agressiva ou se tornam assim em função do contexto em que vivem?

Falando de nós, seres humanos, primatas como os babuínos... o que podemos dizer sobre nossa essência. Seria ela agressiva ou amorosa? Sob que condições nos tornamos violentos uns com os outros, a ponto de cometer crimes e outras violências contra a nossa própria espécie e contra o meio em que vivemos?

Que cultura e que ambiente mantemos hoje que geram estimulam uma percepção de medo e ameaça na humanidade, e estimulam nossas amídalas cerebelosas desencadeando um processo de defesa e agressividade na proporção que conhecemos?

Parece existir um desequilíbrio na humanidade que faz de alguns de nós tão ou mais cruéis que os babuínos alpha. Fazendo uma curta analogia e deixando essas reflexões em aberto... se os babuínos podem viver uma cultura diferente, que surge a partir do amor e da confiança, por que nós, humanos, ainda não conseguimos?

Deixo então a pergunta com que comecei o texto: Como podemos então construir uma cultura de paz e cooperação entre os humanos? E qual o papel de cada um de nós e de nossas organizações nesse processo?

Caso queira ler o artigo “A Natural History of Peace” na íntegra, acesse o link: http://www.truthout.org/article/robert-m-sapolsky-a-natural-history-peace

8 comentários:

Anônimo disse...

Sem chance!!! Soma-se a sua reflexão do outro texto.... é sistemico " a grama do vizinho ser mais verde do que a sua".

Somos instruidos a valorizar, respeitar e ser respeitados, pelo oq temos e nao pelo oq somos... O poder q podemos comprar e apresentar, se mostra sempre como maior virtude... talvez essa seja a nossa "dança do acasalamento"... O homem mais novo tem medo de ser rechassado por uma mulher mais velha, não por sua experiencia ou vivencia, e sim por possvelmente não poder porporcionar algo q ela valorize economicamente..... Por isso mantemos a agressividade, a competitividade... todas as coisas que façam a gente chegar e ter o poder para seduzir e ser respeitado ... como "machos alphas".

Nos macacos a cultura estava estabelecida, quem entrava de adaptava, se esses macacos q ficaram, fossem pra outras tribos, eles que teriam q se adaptar ao meio... e mostrariam sua agresividade.

Vc se adapta ao meio para sobreviver... Se nao para sobreviver, para buscar o sucesso vão que lhe instruem como felicidade.

Narjara disse...

Obrigada pelo importante comentário... acho que isso fica muito nas nossas cabeças, mas tenho uma visão um pouco diferente. Nos adaptamos ao meio, mas somos NÓS que o construimos, mantemos e transformamos. Então, apesar da cultura em que vivemos, cabe a reflexão de como queremos viver daqui pra frente e isso sim, cabe a nós escolher e transformar. E quando o fazemos, percebemos que tudo ao nosso redor se transforma em torno do que escolhemos. :)

Anônimo disse...

creio que em certo momento, chegará um dia "limite", um dia "D" onde a tensão entre os Alpha agressores e os agredidos será tamanha, que eles se degladiarão... talvez tenhamos de "sufocar uma parte da nossa própria raça, para que haja uma cultura de paz nesse planeta, num processo parecido com o dos Babuínos... infelizmente, em muitos casos, a paz só se faz com a guerra e algumas vezes me parece que este dia não está longe.

Narjara disse...

Mto bacana seu comentário... tem uma coisa significativa no ser humano, que é nossa essência amorosa, e não agressiva, como mtas vezes pensamos ou somos ensinados... nossa essência humana mais profunda é amorosa, e por isso nos adaptamos ao ambiente em que estamos, no amor, na abertura... porém quando esse ambiente é agressivo e nos defrontamos com o que nos defrontamos em nossa cultura atual, nos recolhemos e deixamos para fora os escudos e as armas para nos defender... mas eu penso que em um ambiente colaborativo, onde essas máscaras e armas possam ser deixadas de lado, teremos nossa verdadeira essência humana, amorosa e colaborativa. Mas... estamos realmente tendendo mais para o bélico e para a guerra, pq. todos estão amedrontados e defensivos... e isso é um ciclo vicioso sem fim... :(

Anônimo disse...

Sua visão é muitíssimo parecida com a do budismo que eu frequentava. Esses medos e consequentemente nossos escudos e armas, muitas vezes se refletem em nossos relacionamentos sejam eles familiares ou amorosos. É comum afastarmos não só daqueles que nos "agridem" de alguma forma, mas tb de pessoas que nos querem bem ou tentam fazer parte mais atuante da nossa vida por puro medo. Medo de te acharem ridículo, por pensar diferente, de se entregar à alguém que "não merece" seu amor, medo de expor seus medos.. Ao meu ver, tudo isso entra em desarmonia com essa essência boa, sociável.. aí acontecem os conflitos interiores e se vc não está de bem consigo, dificilmente estará em harmonia com aqueles que te cercam.

Jose Colméia disse...

Vivemos e nos transformamos!!!! A transformação faz parte da nossa vida, e um bom modo de se transformar e ver as coisas de outro modo, é a “porrada” que gera a defesa, a que ate pode esconder nossa essência amorosa ....mas q não pode ser descartada ou mesmo ignorada, ela nos faz crescer e sem ela não nos transformaríamos ou mesmo cometeríamos erros já cometidos, hj e ontem..... a defesa não apenas produz guerra, ela te mostra outros caminhos para um novo “amor”...

Porem uma coisa q me intriga é o fato de que mesmo o ser humano, ter sua essência predominantemente amor, e a casca so guerra, ou vice versa, tudo junto misturado ... O Amor traz guerra, e muitas vezes quando um esta sofrendo, outro pode estar soltando rojão, armando uma nova guerra...... talvez a guerra e o amor andem bem mais próximos do q se imagina!!!!

Mas concordo com o fato de vc transformar, o meio em q vive, e ficar cercado de coisas boas ... afinal vc colhe oq planta..... E se fossemos resumir oq deveria ser feito q como deveríamos agir ...não precisaríamos ir muito longe “ Amai a Deus sobre todas as coisas”... and “ Ao próximo como a ti mesmo”..... respeite o mundo em q vive e a pessoa q esta ao seu lado.

Narjara disse...

Bastante interessante seu comentário José. Obrigada!

Eu percebo que o caminho da transformação é um caminho que passa pela reflexão e concordo com você que pode acontecer pela dor, tanto quanto pela curiosidade (considerando essa o caminho pelo amor). E também concordo que na maioria das vezes a dor é mais transformadora, pois ela provoca um movimento para que possamos sair desse espaço desconfortável, enquanto o amor, por vezes pode gerar uma certa "acomodação" ou conforto. Ambos os caminhos são válidos e legítimos, mas percebo também que no caminho da dor a transformação só acontece quando temos em algum lugar dentro de nós referências de um caminho amoroso, que nos dá suporte para entender, aguentar e transformar a dor.

Agora, penso diferente com relação à defesa... a defesa nos fecha para o mundo e muitas vezes para nós mesmos... e aí fica mais difícil refletir e transformar, mas podemos entrar em espaços de dor, e fazer uma reflexão para sair dele, ao invés de ficarmos em um espaço de defesa.

Com relação à proximidade entre o amor e a guerra, também penso diferente, acho que eles estão muito distantes e entendo o que quer dizer, mas acho que quando se justifica a guerra pelo amor, na verdade não é um 'amor verdadeiro', pois esse é aquele que vê ao outro e entende que existem múltiplos mundos, tantos quantos são os seres humanos. No amor existe respeito por esses outros mundos, mesmo que não esteja de acordo, ou não queira vivê-los.

Já na guerra, não vejo ao outro, entendo a minha verdade como única e por ela luto, e imponho aquilo que é meu, negando ao outro. Por isso, nesse caso, entendo que quando se justificativa uma guerra por amor, é simplesmente um auto-engano ou uma justificativa surpeficial... mas guerras podem sim acontecer por paixões, que são cegas, cegas para o outro, cegas para a essência humana.

Jose Colméia disse...

Pelo visto a defesa é o grande impasse em nossa conversa ... afinal todo o resto eu sou obrigado a concordar com vc.... e acho q quando coloquei a frase "respeita ao proximo como a ti mesmo" exemplifique o q vc falou da guerra o amor e o respeito entre os mundos e as diferenças entre eles.... Sempre ouvi a frase "entre o amor e o odeio há apenas uma linha tenue"... e nesse frase q pensei quando escrevi do amor e da guerra acima....
Mas essa tal de defesa ainda não me convense ... eu nao deixo de concordar com vc ... mas ainda acho q ela é valida e precisa existir... eu vejo a defesa como um aprendizado constante ... algo como um calo nas mãos, onde o corpo se defende, ou uma criança q enfia o dedo na tomada e vê q aquilo não é bom, e passa a se defender.

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