Um estudo realizado pelo etólogo Robert Sapolsky, em uma comunidade de babuínos Savana que acompanhava, na reserva masai Mara, Quênia, revelou que uma cultura de paz, é possível mesmo entre espécies violentas de Babuínos. A pergunta que fica é: Como podemos então construir uma cultura de paz entre humanos?Em seu artigo “A Natural History of Peace” (uma história natural de paz), Sapolsky relata um episódio que aconteceu no início dos anos 80, em um grupo particularmente agressivo de babuínos, que já acompanhava por quase 30 anos - os ‘Forest Troop’.
Esse grupo, era vizinho de um outro grupo de babuínos que vivia próximo a um alojamento turístico com um lixo farto de restos alimentares.
Esse grupo, próximo ao alojamento, se organizou em torno do lixo e passou a se alimentar dele. Descobrindo isso, um grupo de machos-alpha dos ‘Forest Troop’, a metade dos machos desse grupo, particularmente agressivos e anti-sociais, passou a invadir o lixo toda manhã, lutando com os outros babuínos pela comida. Até que um dia, a comida estava infectada por tuberculose e dizimou todos os babuínos que se alimentaram dessa. Comos os machos do ‘Forest Troop’ não compartilhavam a comida com o resto do grupo, não os contaminou, deixando o grupo sob o comando de machos menos dominantes e fêmeas, que passaram a ser o dobro do número de machos, dando características cultural e comportamental completamente diferentes para esse grupo.
Ainda existia hierarquia, porém a agressão era rara, houve um aumento significativo no comportamento afiliativo e as carícias entre babuínos, machos e fêmeas e até entre machos passaram a ser frequentes.
Mas o mais surpreendente ainda estava por vir. Mesmo após a morte dos machos que sobreviveram à epidemia e a migração de machos de outros grupos, com padrões de alta agressividade e baixa afiliação, a cultura dos ‘Forest Troop’, de baixa agressividade e alta afiliação, se manteve e os novos integrantes se adaptaram a ela. Até hoje eles se mantém assim, mais de 20 anos depois.
A explicação do pesquisador é que a cultura não foi transmitida ativamente, ela naturalmente emergiu através das ações dos membros residentes. As fêmeas mais relaxadas e bem tratadas, são mais carinhosas e atenciosas, e os novos forasteiros, encontrando um novo universo, também ficam mais relaxados e incorporam-se a cultura, mais prazeirosa do que a que participavam antes.
Estudos mostram que algumas espécies de primatas tem suas vidas repletas de violência, já outras vivem comunitariamente em cooperação, e inclusive alguns padrões genéticos emergem dessas diferenças.
Por exemplo, em grupos como os gibbons ou marmosets, primatas que vivem em lugares onde o alimento é farto, pleno e a vida é ‘fácil’, os machos não possuem algumas características secundárias típicas dos machos de espécies mais violentas, como caninos afiados, tamanho maior que o das fêmeas, além da ajudarem substancialmente na criação dos filhos. Já em espécies mais violentas, como baboons e rhesus, o oposto acontece.
Após décadas de trabalho, concluiu-se que algumas espécies de primatas são violentas ou pacíficas, de acordo com sua estrutura social e com o cenário ecológico em que estão inseridos. E mais importante ainda, é que algumas espécies podem ser pacíficas apesar dos traços violentos que têm em sua natureza.
Do ponto de vista da biologia, alguns estudos mostram que a estrutura cerebral chamada amídalas cerebelosas, parte do sistema límbico, situada no pólo temporal do hemisfério cerebral de grande parte dos vertebrados, incluindo o homem, é um importante centro regulador do comportamento sexual, do medo e da agressividade. E experimentos mostram que ao apresentar rostos de pessoas de diferentes raças, mesmo que sublinarmente, essa região é ativada, ficando alerta e pronta para ação.
Porém, estudos mais recentes, mostram que pessoas que têm experiências com pessoas de outras raças, não apresentam essa reação. E ainda um estudo mais mais recente de Susan Fiske, mostrou que quando avisadas antecipadamente para pensar nas pessoas como indivíduos, ao invés de membros de grupos, ao fazer esse estudo, as amídalas cerebelosas também não são ativadas.
Fazendo uma reflexão mais profunda sobre a mudança cultural no grupo dos babuínos, podemos observar que quando o comportamento agressivo, que gerava violência e medo no grupo foi extinguido, com a morte súbita dos babuínos alpha mais agressivos, a comunidade ganhou uma característica muito mais amorosa e respeitosa entre os membros, que não mais precisavam se proteger. E assim emergiu naturalmente um grupo cooperativo e pacífico, que mesmo ao receber animais de outros grupos, com características agressivas, foi capaz de transformá-los dentro da sua cultura, a partir de suas atitudes como grupo.
O processo foi tão natural que parece que essa cultura estava lá todo o tempo sendo abafada pela violência e agressividade dos machos-alpha. Será mesmo a essência dos primatas agressiva ou se tornam assim em função do contexto em que vivem?
Falando de nós, seres humanos, primatas como os babuínos... o que podemos dizer sobre nossa essência. Seria ela agressiva ou amorosa? Sob que condições nos tornamos violentos uns com os outros, a ponto de cometer crimes e outras violências contra a nossa própria espécie e contra o meio em que vivemos?
Que cultura e que ambiente mantemos hoje que geram estimulam uma percepção de medo e ameaça na humanidade, e estimulam nossas amídalas cerebelosas desencadeando um processo de defesa e agressividade na proporção que conhecemos?
Parece existir um desequilíbrio na humanidade que faz de alguns de nós tão ou mais cruéis que os babuínos alpha. Fazendo uma curta analogia e deixando essas reflexões em aberto... se os babuínos podem viver uma cultura diferente, que surge a partir do amor e da confiança, por que nós, humanos, ainda não conseguimos?
Deixo então a pergunta com que comecei o texto: Como podemos então construir uma cultura de paz e cooperação entre os humanos? E qual o papel de cada um de nós e de nossas organizações nesse processo?
Caso queira ler o artigo “A Natural History of Peace” na íntegra, acesse o link: http://www.truthout.org/article/robert-m-sapolsky-a-natural-history-peace
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