terça-feira, 14 de julho de 2009

Reflexões sobre Sustentabilidade e Cultura!

Num cenário caracterizado pela competitividade cada vez mais acirrada, onde existe a ameaça dos recursos físicos e da vida no planeta, onde as relações humanas estão cada vez menos humanas e as relações de trabalho se transformaram, perdendo o sentido e a cumplicidade e onde percebemos que o sistema atual está fadado à falência. O diferencial das organizações está cada vez menos no produto, na qualidade ou na tecnologia por si sós.

Hoje o cliente busca cada vez menos preço e cada vez mais ativos intangíveis, como relacionamento, ética, coerência... E nesse momento, as relações humanas, os valores e as ações ganham cada vez mais espaço e foco, como um dos caminhos para ser ‘competitivo’ e viabilizar o futuro.

O que se torna importante não é mais o que se faz, mas COMO se faz, como uma indústria extrai matérias primas, como produz, como lida com seus colaboradores, clientes e fornecedores, como interage com a sociedade e com o meio ambiente...

E é o como se faz, que faz de uma organização mais ou menos ‘competitiva’ dentro de um determinado mercado.

A literatura relacionou durante muito tempo vantagem competitiva à lucratividade de uma empresa, porém recentes autores passaram a olhar a ‘competitividade’ sob outros aspectos, pois além da lucratividade ser o resultado de um conjunto de fatores, ela é apenas um dos aspectos que torna uma organização mais ou menos ‘competitiva’.

Os aspectos ‘internos’ da organização passaram a ter relevante importância em algumas abordagens, como a cultura, os talentos, o conhecimento, tecnologia, inovação entre outros. O que torna o conceito mais completo, mas ainda assim, parcial.

Me faço então a seguinte pergunta: “A que serve a competitividade?”

Passo então a refletir e concluo que a competitividade pode ter muitos papéis para uma organização, como destacá-la no mercado, aumentar sua lucratividade, atrair mais clientes, investimentos e outros. Mas no fundo, não servirá para nada se não houver mais um mercado onde estar, ou os clientes para quem vender, ou o meio de onde extrai a matéria prima... de nada servirá se não nos possibilitar o futuro.

Então, proponho considerar esse conceito de forma mais abrangente, pensando os fatores mais relevantes para a ‘competitividade’ como: a preferência dos clientes, investidores, colaboradores e fornecedores; e a viabilização do futuro.

Seguindo esse raciocínio, podemos dizer que ‘competitividade’ é a habilidade de construir o futuro no presente, antecipando o futuro e traçando estratégias e ações para construí-lo de acordo com seus ideais e objetivos, e com a viabilidade, melhoria e crescimento de todo seu entorno. Conquistando resultados e possibilitando a vida do planeta e a sobrevivência das organizações e seu entorno hoje, e no futuro.

Cito a definição de desenvolvimento sustentável apresentada no relatório "Nosso Futuro Comum", publicado em 1987: "O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades".

Podemos então relacionar a Competitividade de uma organização à seu desenvolvimento sustentável, sua visão de longo prazo e sua ação hoje, concluindo então que a ‘competitividade’ está no COMO e não no O QUE.

Quando pensamos no como a organização se realiza no mundo, nos remetemos à sua cultura, que é o que a caracteriza e ao mesmo tempo a distingue das outras. É sua marca registrada de unicidade, o pilar que a sustenta como uma organização e conecta as pessoas, a linguagem, os ideais e os fazeres. Ou seja, quando falamos de desenvolvimento sustentável, não há como não falar de cultura, pois é através dela que a organização se desenvolve, se sustenta e se realiza no mundo.

A cultura de uma organização é sua essência e sua identidade. Ela se constrói ao longo do tempo, servindo como chave para distinguir uma organização, e está presente em todas as práticas, fazeres, pensares e sentires dessa, formando um sistema coerente de significações, representações mentais e um complexo definido de saberes e linguagem.

Ela emerge dos valores e objetivos em torno dos quais uma organização se constitui, através das redes de conversas (linguagem) e relações, das emoções e comportamentos presentes, que constituem e são constituídos por ela, numa relação sistêmica de co-construção de um sentido comum, na conservação e na transmissão dessa cultura para novos membros. Ela funciona como um cimento que une seus membros em torno de objetivos comuns.

Ao falar da cultura como a base para o desenvolvimento sustentável no curto, médio e longo prazos, e de sua constituição e manutenção pelos indivíduos que a compõe, chegamos no indivíduo como o principal responsável pelo desenvolvimento sustentável, porque a partir dele constrói-se a instância coletiva que transcende a individual em força e caráter.

Nesse contexto, a consciência individual impacta na constituição da cultura, que impacta na sustentabilidade das organizações e do planeta, pois é a partir dessa cultura, dessa consciência que se formação as estratégias e ações de nossas organizações e as futuras gerações.

Quando pensamos em consciência, se a ampliamos, cada indivíduo consegue ver mais claramente as consequências de suas ações e através da reflexão ganha a possibilidade de escolhas mais coerentes e responsáveis, em função do que quer conservar. Quando isso acontece, transforma o entorno desses indivíduos, sua cultura, as pessoas ao redor, as organizações, a sociedade e o mundo.

As grandes transformações começam na transformação de um indivíduo, que passa a conservar diferentes emoções, decisões e ações e com isso transforma seu entorno, que transforma o seu entorno, gerando ondas de transformações que se consolidam em mudanças culturais.

O início disso está no direcionamento do olhar para dentro, olhar para dentro de cada um de nós e refletir sobre como fazemos o que fazemos, decidindo o que realmente queremos conservar em nossas vidas, o que realmente vale a pena, como queremos que seja nosso mundo, nosso futuro... o que é o viver sustentável para cada um de nós. A partir desse olhar, tomamos as decisões que consolidarão nossos caminhos e os resultados que teremos dali por diante.

Estamos acostumados a olhar para fora e comparar nossa performance e resultados à outros e assim criamos os parâmetros competitivos, criamos nossas referências a partir do que está fora. Mas não existe nada fora de nós, ou seja, tomamos decisões a partir do que achamos que está fora e muitas vezes esquecemos de olhar o que está dentro, que é nos constitui em essência.

Olhar e fortalecer o que está dentro, refletindo e fazendo escolhas em nosso micro-ambiente, faz com que possamos distinguir com mais clareza o macro-ambiente e tomar ações em prol desse.

A sustentabilidade começa no indivíduo, em como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações, do nosso corpo e do nosso micro-ambiente, que se estende através de nossas redes de relações, nossa cultura para o macro-ambiente. E assim acontece com as organizações também.

Voltando então as bases da sustentatibilidade, a cultura, refletindo sobre a origem dessa palavra, do latim - verbo colere, que significa o cultivo e o cuidado com as plantas, os animais e tudo o que relacionava com a terra - agricultura. Era também usada para referir-se ao cuidado com as crianças e sua educação - puericultura. E estendida para o cuidado com os Deuses - culto. (CHAUI, 1994)

Então, podemos dizer que uma organização que queira ser ‘competitiva’ e sustentável começa olhando para dentro, refletindo sobre o seu fazer, sua estrutura, relações e sobre suas escolhas, agindo para cultivar seus valores, seus colaboradores, o meio em que está inserida, a comunidade que a sustenta... Construindo uma cultura sustentável para ela e para seu entorno. Isso é ser ‘competitiva’ e sustentável.

Enxergar sistemicamente e interagir consigo mesma e com o que está a sua volta, refletindo e provocando reflexões e fazendo escolhas sempre, dentro das coerências dos seus propósitos, estratégias e do que quer conservar como organização, consciente do que a sustenta e agindo hoje para garantir o hoje e o amanhã.

A cultura, é a consolidação de nossas emoções, valores e ações e tem a grande força de impulsionar os membros de uma organização para um propósito comum, além de ser fonte de diferenciação competitiva, quando forte, coerente e coesa. Sua força vem do alinhamento à estratégia e da coerência com suas práticas e discursos.

Por isso, ela pode ser uma força oculta que não controlamos, ou um trunfo consciente que podemos explorar para fortalecer cada vez mais a organização e seu entorno, tornando-se um dos grandes pilares para sua sustentabilidade. Isso só depende de como lidamos com ela e do que estamos conservando.

Paremos para refletir sobre as coerências do que queremos, falamos e fazemos, como pessoas e como organização, façamos escolhas para manter nossa cultura coerente com o que queremos, pois sua força é capaz de transformar o mundo, “domemos” essa força à nosso favor, em favor do futuro que desejamos para o mundo e para os nossos descendentes.

Fica então a reflexão sobre como queremos nosso viver como indivíduos e organizações hoje e que futuro queremos construir?

Narjara Thamiz

2 comentários:

Luciana Bragio disse...

quero aprender mais sobre esse assunto, pois notei que tenho "stops" entre os setenios bem marcados.
vc tem algo mais a acrescentar ?
por favor me envie !
Luciana Bragio
lubragio@gmail.com
design de interiores....rs

Narjara disse...

Olá Juliana,

Esse é um tema um tanto vasto, como não sei bem o que lhe interessou, vou ser mais abrangente e vê o que te serve melhor...

A teoria dos setênios tem como base a Antroposofia – conhecimento desenvolvido pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Esse conhecimento explica o desenvolvimento do ser humano a partir de seus setênios, 0-7, 7-14... ele explica que a cada sete anos surge algo de novo e importante em nossas vidas, são períodos de transformação importantes que contribuem para nosso processo evolutivo. Esses períodos são normalmente marcados por períodos de mudanças físicas ou emocionais, e muitas vezes desencadeiam a sensação do tipo “o que eu faço da vida”. Dependendo de como vivemos esses setênios, nossa história vai se constituindo.

* Os três primeiros setênios – 0 a 21 anos – são denominados setênios do corpo. É um período em que o ser humano enfrenta a jornada do amadurecimento físico e formação da personalidade.

0 a 7 anos – O ninho. Interação entre o individual e o hereditário
7 a 14 anos – incentivos e valores
14 a 21 anos – puberdade /adolescência - crise de identidade

* Os três seguintes – 21 a 42 anos – são denominados setênios da alma. Nesse período, o ser humano já passou por todas as experiências básicas da vida, fazendo várias opções como vida conjugal, trabalho e família.

21 a 28 anos – experimentar limites
28 a 35 anos - fase organizacional
35 a 42 anos – crise de autenticidade

* A partir dos 42 anos, estamos prontos para "iniciar" a vida com maturidade, profundidade e espiritualidade.

42 a 49 anos – altruísmo X querer manter a fase expansiva
49 a 56 anos - “ouvir o mundo”
56 a 63 anos (e adiante) – abnegação / sabedoria

Para saber mais, tem várias informações disponibilizadas na internet, sob a referência de Antroposofia, Setênios e/ou Rudolf Steiner. Tb. tem 2 livros que podem ajudar:

- BASES ANTROPOSÓFICAS DA METODOLOGIA BIOGRÁFICA - Gudrun Burkhard
Editora: Antroposófica

- Assuma a Direção de Sua Carreira - Os ciclos que definem o seu futuro profissional - de Jair Moggi e Daniel Burkhard

Um abraço e boa sorte em sua jornada!

Narjara Thamiz

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