quinta-feira, 21 de maio de 2009

Por uma Nova Competitividade!

Há muitos pensadores, autoridades e pessoas refletindo sobre o tema da competitividade, em como viabilizar a continuidade da vida e do desenvolvimento no planeta. Há muitos desafios, como a miséria, a fome, as doenças e a educação, por exemplo, mas essa é uma responsabilidade compartilhada entre todos nós, indivíduos, países e organizações.

A minha contribuição com esse texto é pensar uma nova competitividade que viabilize esse cenário, refletindo sobre nossa perceção, nossas ações e as consequências dessas na sociedade, no ambiente, nas organizações e em nossas próprias vidas. Possibilitando assim, às pessoas e organizações, a refletirem e re-significarem o sentido da competitividade em suas vidas e organizações.

Fazendo um estudo sobre o conceito de competitividade hoje e suas origens, percebemos que ao longo dos anos distorcemos o que seria buscar/lutar juntos (competir em sua origem latina competere), para lutar contra. Transitamos da construção de redes para o combate.

Muitas são as manifestações sociais atuais que influenciam o conceito de competição e são ao mesmo tempo influenciadas por esse. Essas manifestações estão presentes em nossa cultura, desde a nossa educação, até a maneira como nos relacionamos com as pessoas e com o meio ao nosso redor.

Priorizamos, exploramos e defendemos o NOSSO espaço individual, familiar, organizacional, religioso, geográfico, muitas vezes entendendo o mundo, o mercado, a sociedade, como um espaço escasso e ameaçador, e enxergando o outro como oponente, inimigo, competidor, ameaça.

Assim, deixamos de ver o outro e entramos em um processo de cegueira que exclui, desrespeita e nega as pessoas, as culturas, as religiões e as crenças, acarretando guerras, marginalidade, violência e opressão.

Hoje a competição é entendida como um processo natural entre organismos vivos que coexistem no mesmo ambiente; e normalmente definida como um combate, uma luta entre indivíduos, grupos, nações e/ou animais por um objetivo que não pode ser compartilhado (território, nicho, recursos etc).

Assim, competitividade, que significa a habilidade de buscar juntos, foi ganhando uma conotação comparativa, colocando o outro/o externo como parâmetro, ou seja, ser competitivo signfica a habilidade de ser/fazer melhor que o outro. Além disso, esse conceito tem como base uma crença na escassez e na ameaça da perda de espaço ou da vida, caso uma empresa e/ou um indivíduo não seja melhor que seus “competidores”.

Pensando em tudo isso e sabendo que no processo competitivo poucos são de fato os ‘vencedores’, por que será que continuamos competindo e buscando fora de nós os critérios do que é ser o MELHOR, ou o mais competitivo?

Faço uma hipótese do que pode ter originado essa distorção ou resignificação. Essa hipótese é que nossa percepção foi diretamente influenciada pelas novas teorias que suportaram a revolução industrial, em meados do século XVIII, e da noção de escassez, a que nos remete a teoria da seleção natural, concebida por Darwin, em meados do século XIX.

A competitividade ou livre concorrência é um dos princípios da economia liberal e teve como principais defensores Adam Smith e David Ricardo. Eles defendiam a idéia de que a livre concorrência, a competição entre as pessoas, contribuiria automaticamente para o progresso geral da sociedade. Assim, propunham o incentivo à busca do ganho individual e dos interesses pessoais, para que as pessoas trabalhassem de maneira mais eficaz pelo interesse da sociedade, mesmo que não tivessem de fato esta intenção. A conseqüência era a elevação da renda anual da sociedade.

E a teoria da seleção natural, concebida por Charles Darwin, já na Era Industrial, teve grande influência desses pensadores e dos modelos dessa época. A proposta explicativa dessa é a evolução das espécies como um processo de adaptação e sobrevivência de uma espécie em seu meio, em função dessa ser MAIS adaptada e possuir MAIS êxito em reproduzir-se, que outros organismos da mesma espécie, perpetuando assim seus genes.

Como podemos perceber, a relação entra essas teorias e nossa percepção de competitividade é indiscutível. E podemos observar essa influência nos modelos mentais atuais, quando por exemplo, comparamos nossos filhos às outras crianças, fazemos seleção por competências, quando uma empresa aniquila a outra para ganhar mercado, quando copiamos os produtos do concorrente para não ficar pra trás, quando dizemos: ‘o importante é competir’, ‘competir é saudável e nos incentiva a melhorar’, ‘os melhores são os que vencem na vida’, somos ensinados que ‘vivemos em um mundo escasso, e que só os melhores e os mais fortes têm lugar e sobrevivem’... os exemplos são inúmeros e imagino que cada um de nós lembre de muitos deles tanto na educação, nas relações sociais e familiares, quanto nas organizações que trabalhamos.

A competitividade no mundo corporativo é hoje definida como a característica ou capacidade de uma organização na obtenção de uma rentabilidade igual ou superior aos competidores no mercado. Quando falamos no nível de um país, competitividade é definida como a capacidade de um país de sustentar o crescimento econômico futuro.

De modo geral na literatura sobre o tema, competitividade implica sempre em uma comparação com outros players, e mais que um comparação, implica em ser superior/melhor que os outros players do mercado em determinados aspectos, valorizados pelo mercado em que a empresa está inserida, em um determinado momento. O que tem sido mais valorizado nesses aspectos competitivos é a obtenção de retornos financeiros de longo prazo, superiores ao mercado.

Pode-se concluir da literatura também que uma empresa é tanto mais competitiva, quanto mais valiosa e sustentável for a sua vantagem ou diferencial competitivo frente à compradores, concorrentes e demais competidores no mercado, e quanto mais sua estratégia for suficiente para garantir a perenidade da empresa.

Um outro aspecto ligado à competitividade de uma empresa é a sobrevivência dessa, implicando na necessidade de manter um determinado grau de competitividade, relativo ao seu mercado, para que a empresa sobreviva.

Houve uma evolução no conceito de competitividade, que como podemos observar na breve revisão acima, foi se tornando mais abrangente e sistêmico, porém ainda assim, hoje já podemos ver os resultados do conceito de livre concorrência, que acabou por eliminar a si mesma na história, com a constituição de monopólios e oligopólios privados, surgindo assim um neoliberalismo, que coloca o Estado como “controlador”/estimulador da competitividade.

Nesse contexto, podemos afirmar que existiu uma intenção de promover a idéia da competição como intrinsecamente positiva, gerando benefícios para o consumidor e desenvolvimento sócio-econômico para a humanidade, como já afirmavam Adam Smith e David Ricardo, o que de fato podemos constatar na evolução sócio-econômica que tivemos.

Porém quando um propões um teoria ou um conceito, não determina como os outros o ‘escutarão’, e da maneira como internalizamos o conceito de competição, e conforme ele vem sendo praticado e ensinado, centrado na luta, no individualismo e sem reflexão, ele foi bastante destrutivo, como também já podemos constatar nos desequilíbrios importantes no planeta como um todo e nos problemas sócio-ambientais que estão presentes em nossa realidade atual.

A questão toda, não é o conceito ou a palavra competitividade, e sim como a significamos e o que ela representa para nós, pois isso influencia diretamente em como vivemos e convivemos.

Com isso, chega o momento de fazermos uma reflexão sobre o que queremos seguir construindo e como, e a partir dessa reflexão, que se faz urgente e importante, nos responsabilizarmos cada vez mais pelas consequências dos nossos desejos e ações.

Por que muitas vezes valorizamos mais o que está fora, esquecendo de olhar pra dentro, para quem somos, o que queremos, e para os nossos próprios valores?

O verdadeiro sentido está dentro de cada um, e quando se logra encontrá-lo, seja um indivíduo, uma organização e/ou um país, descobre-se aquilo que realmente nos tornará aptos a viver, onde e como queremos, o que nos diferencia dos outros e nos faz únicos, o nosso espaço, dentro do espaço comum, o que não implica em tomar o espaço de nada, nem de ninguém, a não ser que tenhamos isso como paradigma e/ou desejo.

Pensando nesse sentido, a restrição que a competição provoca é muito grande, pois nos impõe padrões e modelos aos quais devemos nos adaptar para não ficar de ‘fora’. Porém, essa riqueza da diversidade, advinda da nossa unicidade, é o que nos faz humanos. Ou seja, o processo competitivo, da maneira como está configurado, não é um processo humano e construtivo, pois ele nega a essência da vida, que é a diversidade, e a essência humana, aquela que nos diferencia dos animais e que nos impulsiona a construir juntos e viver em comunidade.

Então, como viver uma nova competitividade na cultura em que estamos inseridos hoje?

Voltando à minha hipótese das bases da distorção do atual conceito de competitividade - Adam Smith, David Ricardo e Charles Darwin - podemos fazer um contraponto, a partir de um artigo, publicado em 2000, por Humberto Maturana e Jorge Mpodozis entitulado de “El Origen de las Especies por Medio de la Deriva Natural” (A Origem das espécies por meio da Deriva Natural), que faz um reflexão sobre o processo de evolução da vida, e oferece uma outra perspectiva desse processo, que pode mudar a maneira como enxergamos a evolução, impactando significativamente a maneira como enxergamos a vida e nos relacionamos.

Nesse artigo eles fazem um contraponto à teoria da seleção natural, apontando que o processo da evolução é um processo sistêmico e espontâneo, sem intenção de um organismo de estar mais adaptado. É um processo que surge na deriva natural do viver de um organismo em coerência com o meio onde habita, se moldando a esse ambiente para, a ele estar acoplado, mantendo sua vida.

Para Maturana e Mpodozis, o processo da evolução não ocorre como um processo seletivo, se não, como uma deriva filogênica. Ou seja, a diferenciação de linhagens não ocorre em termos competitivos da sobrevida dos mais aptos, se não que no fluir de uma realização individual do viver do apto ou organismo que conserva sua organização e adaptação ao meio em que vive. Ou seja, a seleção natural é um resultado e não um mecanismo gerador. (MATURANA e MPODOZIS, 2000)

Ou seja, ao dar-nos conta do significado do que eles estão dizendo, que não existe uma “competição” para a sobrevivência e evolução das espécies, e pensar no valor de influência que tem o conhecimento científico na formação de nossa percepção de mundo e das nossas ações; uma mudança no conceito de como evoluímos como espécies e de como se dão as relações entre os organismo, saindo do Mais adaptado para simplesmente o apto às coerências espontâneas do viver, pode acarretar em uma mudança significativa no modo como percebemos o mundo e nos relacionamos.

Considerando as reflexões e estudos acima, podemos entender competitividade como a habilidade de buscar juntos, de interagir e construir junto com o meio em que se está inserido aquilo que se objetiva construir, gerando benefícios e desenvolvimento para todas as partes envolvidas, em um processo de crescimento e bem-estar mútuos com tudo o que está a volta. Gerando assim práticas consistentes, éticas, sistêmicas, integradas e sustentáveis.

Assim, podemos pensar a competitividade como um impulso para a evolução como indivíduos, sociedade, país, planeta, humanidade, caminhando juntos, como começamos, como uma comunidade única. Dentro desse novo paradigma, há espaço para todo e cada um de nós, sejamos indivíduos ou organizações, mas encontrar esse espaço implica em olhar pra dentro e conhecer aquilo que temos de melhor, nossas forças e fraquezas. Conhecer nossos talentos, nossos desejos, propósitos e objetivos.

Quando estamos mais conscientes de nós mesmos, podemos olhar para fora como observadores, conscientes de que nosso olhar é parcial, de acordo com a nossa história e com nossos desejos, e um dos muitos olhares possíveis, ou seja, somos todos mundos únicos, todos válidos em seus domínios, porém todos distintos.

Essa diferença é o que nos constitui como seres únicos, pensando na organização falamos em sua cultura e seus valores, e conhecendo a nossa unicidade, podemos refletir e escolher com mais consistência, coerência e consciência o que queremos conservar, onde e como queremos estar.

Essa reflexão leva uma organização, um país ou um indivíduo a encontrar e escolher seu espaço único no mundo, sem precisar copiar o outro, explorar ou lutar com o meio e/ou com outros players. Direcionando a nossa energia de fora para dentro, nos fortalecemos e emergimos em nossa unicidade, no espaço que nos cabe, no mundo e/ou no mercado.

Um observador ao observar uma organização diria que essa é competitiva, considerando o conceito que atribuímos à competitividade nesse artigo, ao verificar que ela funciona em coerência com seu meio, interagindo com os diferentes atores, transformando-se a si e ao seu en-torno e sendo transformada por ele, de forma espontânea e natural, gerando desenvolvimento para si e para todo seu entorno nos curto, médio e longo prazos.

Quando isso não acontece ou há algum desequilíbrio, a organização “adoece” como um ser humano, e se então, deixa de estar “acoplada” ao meio em que está, tende a morrer.

Penso uma nova competitividade englobando três aspectos:
- dinamismo, assim como Barbosa, citado acima, pois ela tem um movimento de transformação constante para manter-se acoplada, em coerência com o meio que está inserida, também em constante transformação;
- interação sistêmica, pois ela engloba diferentes variáveis e atores (inclusive os considerados concorrentes) em distintas dimensões da organização, e sua capacidade de interagir com essa rede, gerando desenvolvimento sustentável para todos.
- centrada na organização, como a visão baseada em recursos e a percepção do direcionar o olhar para “dentro”, mencionada acima, enfatizando a
necessidade da organização de se conhecerem todos os aspectos, fortalecendo seus diferenciais, conscientizando-se do que quer e como quer e assumindo responsabilidade por suas ações e desejos, para assim surgir em seu espaço único no mercado.

Sob uma outra perspectiva, podemos concluir também que uma organização para ser competitiva precisa estar em harmonia entre as seguintes dimensões:

- foco interno (eficiência interna), considerando a gestão do negócio, processos, talentos, tec-nologia, cultura...;
- foco externo (desempenho), posição de mercado, marketshare, percepção de marca...;
- foco estratégico (capacidade estratégica), a habilidade de enxergar a dinâmica do mercado em que está inserida, antecipar o futuro, adequando suas estratégias a essa dinâmica, as mudanças e tendências de futuro que impactam no negócio.

Para encerrar, proponho que olhemos para dentro e façamos uma reflexão sobre nossas práticas, nossos desejos e nossos valores. A partir desses, façamos então escolhas coerentes, conscientes e responsáveis. E a partir dessas escolhas, tudo se
transforma ao nosso redor, em função daquilo que escolhemos.

Esse é o início, o meio e o fim de um processo de transformação individual e coletivo, e só através dele poderemos viabilizar organizações mais ‘sustentáveis’ e a vida em nosso planeta.



Boa Reflexão!

Narjara Thamiz