terça-feira, 23 de junho de 2009

O que vemos?


“No zoológico do Bronx, em Nova York, há um grande pavilhão especialmente dedicado aos primatas. Lá é possível ver os chimpanzés, gorilas, gibões e muitos macacos do novo e do velho mundo. Chama a atenção, porém, que no fundo existe uma jaula separada, com fortes grades. Quando nos aproximamos, vemos uma inscrição que diz: “O primata mais perigoso do planeta”.

Ao olhar por entre as grades, vemos com surpresa a nossa própria imagem: o letreiro esclarece que o homem já matou mais espécies que qualquer outra espécie conhecida. De observadores, passamos a observados (por nós mesmos). O que vemos?” **

Ao ver nossa própria imagem refletida no espelho, passamos a olhar para nós mesmos com olhos de observadores que somos, é nesse momento que nasce o processo reflexivo.

A reflexão é um processo de conhecer como conhecemos, é o ato que possibilita responsabizar-nos por nossas ações, é a liberdade do olhar, do pensar e do agir... um instrumento humano que nos possibilita mudar o rumo de nossas vidas e de nossas ações a cada instante que vivemos, a partir do que enxergamos e escolhemos.

A reflexão acontece quando damos um passo ao lado para olhar e perguntar-nos sobre como estamos vivendo o que estamos vivendo. Ela nos possibilita entrar em contato conosco mesmo, com nossos desejos e cegueiras, com nossas ações e suas consequências, nos colocando na trilha das coerência de nosso viver.

Em nossa cultura ocidental, centrada mais na ação do que na reflexão, nossa vida pessoal e nossas escolhas são, geralmente, cegas para nós mesmos. Vivemos sem viver, sem perceber que a cada momento fazemos escolhas que implicam em tudo que acontecerá a partir desse momento.

Essa inconsciência implícita nas ações e a falta de conhecermos as consequências de nossos atos e nos responsabilizarmos por esses, nos trouxe e ainda nos traz muitas consequências tanto para nossas vidas pessoais, quanto para o mundo em que vivemos. Para onde olharmos podemos constatá-las, mas também podemos mudá-las a qualquer momento, a partir das escolhas que fazemos ao refletir sobre nossas ações.

Há uma inseparabilidade entre o que pensamos, fazemos e nossas experiências no mundo, pois não existe nada fora de nós. O mundo que vemos, percebemos e através do qual interagimos é um representação, única e particular nossa desse mundo que achamos estar fora. Assim, nos damos conta de que não existem verdades, nem certo ou errado, simplesmente maneiras distintas de perceber o mundo e assim, agir nele.

Assim, refletir sobre como percebemos e como fazemos o que fazemos, se torna fundamental para sair da ‘maia’ que vivemos e poder fazer escolhas responsáveis, conscientes de suas consequências e de que somos os únicos responsáveis por manter ou mudar a nós mesmos. E quando fazemos isso, a partir de nós mudamos o mundo que vivemos, gerando muitas outras ondas de transformação.

O que vemos?

Boa Reflexão!

Narjara Thamiz

(**Texto retirado do livro: "A Árvore do Conhecimento" - Humberto Maturana e Francisco Varela)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A Pergunta e a Resposta!

Segue um trecho de um diálogo entre um garoto e um extra-terrestre, rescém-chegado ao Planeta Terra, retirado do livro "Ei! Tem alguém aí?", de Jostein Gaarder.

"Assim que Mika acabou de testar a gravidade, ficou de quatro no chão e examinou a grama. Primeiro cheirou, depois arrancou uns tufos verdes e pôs na boca. Sem dúvida o gosto não lhe agradou, pois logo cuspiu a grama fora.

“Isso não serve para comer”, falei.

Ele cuspiu de novo, várias vezes. Fiquei com um pouco de pena. Se ele estava viajando fazia meses e meses, vindo lá de outro planeta, devia estar com muita fome! Pensando nisso, corri até a árvore e apanhei uma bela maçã do chão. Achei melhor tentar recebê-lo bem, em nome do meu planeta.

“Pode comer uma maçã”, falei, oferecendo-lhe a fruta.

Foi como se ele estivesse vendo uma maçã pela primeira vez. Primeiro só cheirou, depois arriscou uma dentadinha. Daí exclamou: “Nham-nham!”, e deu uma grande mordida.
Perguntei: “Você gosta?”

Ele se inclinou bem para a frente, fazendo uma reverência. Eu queria saber que gosto tem a primeira maçã que alguém come na vida. Perguntei de novo:“Que gosto tem?” E ele fez outra reverência.

Então perguntei: “Por que você está se inclinando?”

Mika se inclinou mais uma vez. Fiquei tão perplexo que só consegui perguntar de novo:
“Mas por que você está se inclinando desse jeito?”

Agora foi a vez de Mika ficar confuso. Acho que ele não sabia se era melhor se inclinar mais uma vez, ou só responder.

“Lá de onde eu venho”, explicou ele, “nós sempre fazemos uma reverência quando alguém faz uma pergunta fascinante. E quanto mais profunda for a pergunta, mais profundamente a gente se inclina.”

“Nesse caso”, perguntei, “o que vocês fazem quando querem se cumprimentar?”

“Tentamos pensar numa pergunta inteligente.” disse ele.

“Por quê?” perguntei confuso.

Primeiro ele fez uma reverência rápida, já que eu tinha feito mais uma pergunta; daí falou: “Tentamos pensar numa pergunta inteligente, para fazer a outra pessoa se inclinar.”

Essa resposta me impressionou tanto que fiz uma profunda reverência, me inclinando ao máximo. Quando levantei os olhos, vi que ele estava chupando o dedo. Houve uma longa pausa até ele tirar o polegar da boca. “Por que você me fez uma reverência?”, perguntou ele num tom quase ofendido.

“Porque você deu uma resposta superinteligente para a minha pergunta”, respondi.

Daí, numa voz bem alta e clara, ele disse algo que eu haveria de lembrar para o resto da vida: “Uma resposta nunca merece uma reverência. Mesmo que for inteligente e correta, nem assim você deve se curvar para ela.”

Fiz que sim rapidamente. Mas me arrependi no mesmo momento, pois Mika poderia pensar que eu estava me inclinando para a resposta que ele acabava de dar.

“Quando você se inclina, você dá passagem”, continuou Mika. “E a gente nunca deve dar passagem para uma resposta.”

“Por que não?” perguntei.

“A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só a pergunta pode apontar o caminho para a frente.” Achei que havia tanta sabedoria nas suas palavras que precisei segurar bem firme meu queixo para não fazer outra reverência."

Esse sábio trecho ilustra o quanto nossa cultura valoriza um suposto saber fora de nós. O quanto valorizamos ter respostas que cumpram as expectativas que temos ou que confirmem os modelos mentais que queremos manter.

Faço a reflexão sobre o quanto estamos apegados as nossas certezas e a posição do que sabe, do inteligente, do estratégico, do bem-sucedido... e o quanto tudo isso nos torna mais frágeis e menos sábios.

Quando encontramos as respostas paramos de nos perguntar, e na maioria das vezes de refletir também. Quem responde, responde desde seus paradigmas, experiências e conhecimentos, que não necessariamente correspondem aos nossos, e muitas vezes nos impede de construir novos modelos.

Hoje não há mais espaço para os velhos paradigmas, precisamos rapidamente construir novas maneiras de nos organizar para que seja possível a vida no planeta. A pergunta e a reflexão nos levam a outro espaço, vão retirando os véus que encobrem nossa visão e nos possibilitam múltiplas maneiras de perceber e realizar.

Então ficam as reflexões: A que reverenciamos?
A que servem as respostas que buscamos?
Que perguntas ou reflexões são significativas para o viver que queremos viver?

Narjara Thamiz

terça-feira, 9 de junho de 2009

A Árvore do Conhecimento!

"Quando os humanos ainda viviam no Paraíso, havia no meio do Jardim uma árvore mística cuja vida era misteriosamente ligada aos seus feitos e gestos. Cada nascimento de um pequenino homem acrescentava uma radícula à árvore e cada morte fazia desaparecer uma fibrila de suas raízes. Quando uma arte era inventada e se difundia entre as tribos, crescia um galho novo e a insígnia dessa arte refletia sobre as folhas do jovem galho. Quando um clã nômade se estabelecia em uma terra desconhecida, os costumes que derivavam do clima e os recursos do lugar faziam abrir na árvore novas flores, e esses buquês tinham o perfume do novo lugar. Todas as vezes que uma criança aprendia algo novo ou adquiria uma nova habilidade, a árvore adquiria novo vigor e as folhas, que traziam o emblema de tais conhecimentos e habilidades, tornavam-se mais brilhantes, mais verdes.

Mas quando um saber se perdia, quando uma história ou uma habilidade caía no esquecimento, se algum velho morria sem ter transmitido sua experiência, então a árvore diminuía, as folhas caíam, os frutos secavam antes de terem atingido sua madureza e ninguém podia experimentá-los.

A árvore crescia com a humanidade. Estação após estação, trazia sinais mais numerosos e variados: indícios de talhadores de ossos e de sílex, símbolos de artesanatos e curtimento de peles, marchados emblemáticos dos caçadores, dardos dos guerreiros.
Os xamãs curandeiros, os que sabiam dos hábitos das bestas, os que falavam com os Deuses, os intérpretes entre os clãs, os bardos e os gravadores de figuras nas pedras, todos fazendo nascer na árvore novos sinais desde que encontrassem outras maneiras de fazer, de dizer ou de contar. E as mães, cada vez que falavam com os recém-nascidos, faziam subir na árvore uma seiva de primavera.

Assim, todos os humanos vivos formavam as raízes da árvore mística e todos dela eram jardineiros. O húmus no qual crescia não pesava um peso de argila ou de poeira, pois era o solo impalpável da transmissão, de geração em geração, de um clã a outro, de boca a ouvido, pela observação e a imitação. A água benfazeja não caia das nuvens, mas da fonte das invenções, dos numerosos regatos das adaptações e dos empréstimos.

E foi assim que a árvore mística, crescendo no mais das vezes e relaxando algumas, amarelecendo e verdejando, agitando seus milhares de sinais e de emblemas, oscilando e farfalhando ao vento da pré-história, acompanhou a aventura dos primeiros homens.

Mas chegou uma estação (nesta época, as geleiras estavam bem ao norte) em que a brisa da noite trazia mensagens inéditas, incompreensíveis. Algo havia imperceptivelmente mudado no ar do Jardim. Uma fenda crescia entre o espaço e o tempo. Os Deuses mudaram de feição. Não era mais o Paraíso.

Inúmeros homens já moravam em cidades fortificadas. Muitos trabalhavam com dificuldades nas terras usurpadas pelos conquistadores ou pelos senhores. Uma casta estabeleceu-se acima dos outros homens. Com uma grande quantidade de escravos, ela dirigia as escavações de longos canais de irrigação, a ereção de diques contra a cólera e o transborde dos rios. Os administradores faziam subir muralhas, templos, pirâmides e torres para parar o tempo, eternizar a glória dos reis e contemplar mais de perto as estrelas.

Na sombra dos palácios, os escribas gravavam em suas estantes o crescimento das tropas, o registro dos escravos e a contagem dos, grãos nos silos. Possuídos pelo jogo de um incessante cálculo, os escribas quiseram também contar o saber: desenharam, então, uma árvore do conhecimento do seu campo e se embriagaram, com este novo poder.

E assim perdeu-se a memória de que cada humano em pé sob o sol formava uma raiz da árvore mística e que o conhecimento era humilde, vasto, diverso e mutante como a vida.

Foram declarados ignorantes os que não haviam aprendido os poemas antigos, as línguas moribundas, e os sinais que se ensinavam nas casas dos escribas. Uma nova casta proclamava-se a única sábia, regozijava-se de sua sabedoria e queria que sua ciência se colocasse acima das outras.

Mas os homens desse tempo guardavam confusamente a lembrança do Paraíso. E tempos depois puderam voltar a desenhar, com sua própria existência, a grande árvore coletiva, vidas e conhecimentos misturados. Espelhos longínquos davam a ver, em todos os lugares, os crescimentos e as metamorfoses da árvore com seus milhares de sinais coloridos, para não mais esquecer que a vida não está separada do saber.”

Pierre Levy

Esse lindo conto, escrito pelo filósofo e sociólogo francês Pierre Lévy, nos faz refletir sobre a riqueza e a beleza do nosso processo de aprendizagem, processo que acontece desde que nascemos até o fim de nossas vidas, em todos os espaços que vivemos e convivemos. E que alimenta, enriquece e fortalece a árvore da vida, que sustenta a humanidade.

Também ilustra como em um determinado momento, nos ‘desconectamos’ da essência do conhecer, da nossa própria essência humana, e passamos a viver uma cultura que valoriza determinados saberes e nega outros, onde os seres humanos passam a viver inseguros e com medo de “não saber” e de compartilhar seus saberes, como se só os saberes “acadêmicos” fossem legítimos, e como se a fonte do saber fosse esgotar se a compartilhamos.

Em um determinado momento nos ‘desligamos’ da fonte abundante do saber humano, que nos conecta a todo o planeta. Essa fonte cresce e se fortalece a medida que trocamos e adquirimos saberes, e em contrapartida, nos inunda de outros conhecimentos, que nos permitem construir novos saberes e assim ela alimenta e é alimentada nesse processo, assim como nós.

A árvore é uma excelente metáfora para esse processo, pois é um ser vivo, que se renova constantemente, trocando suas folhas, crescendo ou secando galhos, raízes, flores e frutos, assim como nosso processo de aprendizagem. Ela está fincada no solo, de onde se alimenta e se consolida, crescendo no sentido do “céu”, transformando esse alimento em folhas, frutos e flores, como o processo do conhecer que transforma as informações, conhecimentos e experiências em sabedoria e habilidades. Saímos do solo, acessando ou nos alimentando da matéria bruta, e vamos construindo e consolidando essa matéria ao longo da vida, transformando-na em iluminação, ou seja, sabedoria.

A cada dia, a cada aprendizagem que construímos, a cada nova experiência, a cada troca, nós alimentamos e embelezamos essa árvore.

Nosso conhecimento é constituído por todos esses elementos brutos que vamos coletando e sintetizando durante a vida, que é fertilizado pela linguagem (conversas), nas trocas e na convivência com outras pessoas que trazem outras matérias brutas, ou as vezes as mesmas, porém sintetizadas de outra maneira.

Essa riqueza de saberes, constituída pela multiplicidade de conhecimentos e pela diversidade humana, compõe a beleza do processo do conhecer. Todo ser humano tem milhares de saberes e conhecimentos, que vão desde os mais simples, como arrumar a casa, ou fazer comida, até os mais complexos, como desenhar uma estratégia, construir um máquina. Nossos saberes são a síntese de nossas experiências, percepções, conhecimentos, interações, ou seja, são o resultado de nossa história individual, mesclado com os saberes de nossa comunidade, família, de nossa cultura e da própria humanidade, ou seja, unido com o resultado de nossa história coletiva.

Todos os saberes são legítimos e importantes, pois cada um deles compõe uma rede maior de outros saberes mantendo-a e sendo mantido por essa. O conhecimento que temos hoje, é influenciado e influencia a nossa percepção de mundo, e portanto se transforma a medida que nos transformamos, e nos transforma, a medida que o ampliamos nas trocas na convivência legítima com outras pessoas, outros “mundos”.

Cada conhecimento que construímos e compartilhamos, é como se jogássemos uma semente nessa rede, que alimentará outros conhecimentos, e assim vamos construindo e enriquecendo nossa árvore de conhecimento, para que cada vez mais possamos usufruir de mais saberes para construir novos e conhecimentos e tecnologias.

Todas essas variáveis se articulam e se interconectam ao mesmo tempo, possibilitando um número infinito de combinações em comunicações, representações e relacionamentos. Como uma rede cibernética, que funciona num verdadeiro “multílogo” e sem um centro determinado.

Trata-se de uma verdadeira ecologia, uma ecologia cognitiva, como a denomina Pierre Lévy. Esses “fios” e essas relações constituem aquilo que chamamos de inteligência coletiva. E a medida que compartilhamos nossos saberes, recebemos outros olhares que enriquecem e transformam ao nosso saber, a nós mesmos e os espaços, organizações que habitamos.

A base fundamental da inteligência coletiva se constitui no reconhecimento e no enriquecimento mútuos do “coletivo singular” que são as pessoas, considerando a multiplicidade de sua história, seus conhecimentos e capacidades e a multiplicidade dos contextos em que está inserida. Ela se constitui em uma rede construtiva e cooperativa, onde cada um agrega seus saberes, interage com outros saberes e dela emergem novos conhecimentos.

Podemos dizer que uma empresa é uma multiplicidade de multiplicidades, um coletivo de coletivos, igualmente se auto-organizando e operando no seio da inteligência coletiva. Como então potencializá-la nesse aspecto, aproveitando todos esses conhecimentos e saberes de modo a transformá-la em uma produtora de novos saberes, tecnologias e conhecimentos?

Algumas possibilidades são:

Construindo uma cultura do compartilhar, onde todos os mundos, conhecimentos e saberes são válidos dentro das coerências de seus domínios, onde não se nega, nem se rechaça conhecimentos, saberes, percepções e experiências, e sim, sabe-se aproveitá-los no momento certo e para as situações mais adequadas.

Promovendo mecanismos para registrá-los e ferramentas que facilitem o intercâmbio de saberes dentro da própria organização, entre os profissionais que ali co-habitam.

Propondo continuamente novas perguntas e novos desafios para grupos múltiplos, incentivando a reflexão coletiva sobre esses saberes individuais e coletivos e co-construindo novos conhecimentos, saberes e habilidades e fertilizando esses com outros saberes e conhecimentos.

Essas são algumas ações que podem facilitar esse aproveitamento da inteligência coletiva, mas cada situação é uma. O que é comum a todas, é que todos somos seres humanos e buscamos espaços de confiança e respeito para compartilhar nossos saberes, e somente nesses espaços conseguimos verdadeiramente aprender e contribuir. Então independente da ação que for tomada, essa compreensão é a base de tudo.

As organizações precisam rever e adequar suas estratégias e tecnologias para poderem potencializar toda esta riqueza que apenas começa a ser visível nessa nova era, a era da inteligência coletiva, uma inteligência infinitamente maior do que a individual.

Compartilhemos nossos conhecimentos!

Um grande abraço,

Narjara Thamiz

terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma Cultura de Paz!

Um estudo realizado pelo etólogo Robert Sapolsky, em uma comunidade de babuínos Savana que acompanhava, na reserva masai Mara, Quênia, revelou que uma cultura de paz, é possível mesmo entre espécies violentas de Babuínos. A pergunta que fica é: Como podemos então construir uma cultura de paz entre humanos?

Em seu artigo “A Natural History of Peace” (uma história natural de paz), Sapolsky relata um episódio que aconteceu no início dos anos 80, em um grupo particularmente agressivo de babuínos, que já acompanhava por quase 30 anos - os ‘Forest Troop’.

Esse grupo, era vizinho de um outro grupo de babuínos que vivia próximo a um alojamento turístico com um lixo farto de restos alimentares.

Esse grupo, próximo ao alojamento, se organizou em torno do lixo e passou a se alimentar dele. Descobrindo isso, um grupo de machos-alpha dos ‘Forest Troop’, a metade dos machos desse grupo, particularmente agressivos e anti-sociais, passou a invadir o lixo toda manhã, lutando com os outros babuínos pela comida.

Até que um dia, a comida estava infectada por tuberculose e dizimou todos os babuínos que se alimentaram dessa. Comos os machos do ‘Forest Troop’ não compartilhavam a comida com o resto do grupo, não os contaminou, deixando o grupo sob o comando de machos menos dominantes e fêmeas, que passaram a ser o dobro do número de machos, dando características cultural e comportamental completamente diferentes para esse grupo.

Ainda existia hierarquia, porém a agressão era rara, houve um aumento significativo no comportamento afiliativo e as carícias entre babuínos, machos e fêmeas e até entre machos passaram a ser frequentes.

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir. Mesmo após a morte dos machos que sobreviveram à epidemia e a migração de machos de outros grupos, com padrões de alta agressividade e baixa afiliação, a cultura dos ‘Forest Troop’, de baixa agressividade e alta afiliação, se manteve e os novos integrantes se adaptaram a ela. Até hoje eles se mantém assim, mais de 20 anos depois.

A explicação do pesquisador é que a cultura não foi transmitida ativamente, ela naturalmente emergiu através das ações dos membros residentes. As fêmeas mais relaxadas e bem tratadas, são mais carinhosas e atenciosas, e os novos forasteiros, encontrando um novo universo, também ficam mais relaxados e incorporam-se a cultura, mais prazeirosa do que a que participavam antes.

Estudos mostram que algumas espécies de primatas tem suas vidas repletas de violência, já outras vivem comunitariamente em cooperação, e inclusive alguns padrões genéticos emergem dessas diferenças.

Por exemplo, em grupos como os gibbons ou marmosets, primatas que vivem em lugares onde o alimento é farto, pleno e a vida é ‘fácil’, os machos não possuem algumas características secundárias típicas dos machos de espécies mais violentas, como caninos afiados, tamanho maior que o das fêmeas, além da ajudarem substancialmente na criação dos filhos. Já em espécies mais violentas, como baboons e rhesus, o oposto acontece.

Após décadas de trabalho, concluiu-se que algumas espécies de primatas são violentas ou pacíficas, de acordo com sua estrutura social e com o cenário ecológico em que estão inseridos. E mais importante ainda, é que algumas espécies podem ser pacíficas apesar dos traços violentos que têm em sua natureza.

Do ponto de vista da biologia, alguns estudos mostram que a estrutura cerebral chamada amídalas cerebelosas, parte do sistema límbico, situada no pólo temporal do hemisfério cerebral de grande parte dos vertebrados, incluindo o homem, é um importante centro regulador do comportamento sexual, do medo e da agressividade. E experimentos mostram que ao apresentar rostos de pessoas de diferentes raças, mesmo que sublinarmente, essa região é ativada, ficando alerta e pronta para ação.
Porém, estudos mais recentes, mostram que pessoas que têm experiências com pessoas de outras raças, não apresentam essa reação. E ainda um estudo mais mais recente de Susan Fiske, mostrou que quando avisadas antecipadamente para pensar nas pessoas como indivíduos, ao invés de membros de grupos, ao fazer esse estudo, as amídalas cerebelosas também não são ativadas.

Fazendo uma reflexão mais profunda sobre a mudança cultural no grupo dos babuínos, podemos observar que quando o comportamento agressivo, que gerava violência e medo no grupo foi extinguido, com a morte súbita dos babuínos alpha mais agressivos, a comunidade ganhou uma característica muito mais amorosa e respeitosa entre os membros, que não mais precisavam se proteger. E assim emergiu naturalmente um grupo cooperativo e pacífico, que mesmo ao receber animais de outros grupos, com características agressivas, foi capaz de transformá-los dentro da sua cultura, a partir de suas atitudes como grupo.

O processo foi tão natural que parece que essa cultura estava lá todo o tempo sendo abafada pela violência e agressividade dos machos-alpha. Será mesmo a essência dos primatas agressiva ou se tornam assim em função do contexto em que vivem?

Falando de nós, seres humanos, primatas como os babuínos... o que podemos dizer sobre nossa essência. Seria ela agressiva ou amorosa? Sob que condições nos tornamos violentos uns com os outros, a ponto de cometer crimes e outras violências contra a nossa própria espécie e contra o meio em que vivemos?

Que cultura e que ambiente mantemos hoje que geram estimulam uma percepção de medo e ameaça na humanidade, e estimulam nossas amídalas cerebelosas desencadeando um processo de defesa e agressividade na proporção que conhecemos?

Parece existir um desequilíbrio na humanidade que faz de alguns de nós tão ou mais cruéis que os babuínos alpha. Fazendo uma curta analogia e deixando essas reflexões em aberto... se os babuínos podem viver uma cultura diferente, que surge a partir do amor e da confiança, por que nós, humanos, ainda não conseguimos?

Deixo então a pergunta com que comecei o texto: Como podemos então construir uma cultura de paz e cooperação entre os humanos? E qual o papel de cada um de nós e de nossas organizações nesse processo?

Caso queira ler o artigo “A Natural History of Peace” na íntegra, acesse o link: http://www.truthout.org/article/robert-m-sapolsky-a-natural-history-peace